
Ângulos de câmera, cortes de cena e outras
instruções técnicas quase certamente serão mudados
completamente pelo diretor, câmera e editor, durante o
longo processo de produção.
Mas quando sua indicação, no roteiro, é
absolutamente indispensável? Afinal, estamos escrevendo
roteiros de cinema, e às vezes precisamos - ou queremos
- dirigir um pouco o nosso filme. Vamos discutir alguns
dos elementos que se pode precisar com mais frequência:
Transições
São indicações sobre como cortar de uma cena para
outra. A justificação é sempre à direita, com uma
linha entre a última linha da cena anterior, e o
cabeçalho da cena seguinte:
CORTA PARA:
É a transição standard, portanto um pouco
supérflua - pelo menos na minha opinião.
FUSÃO PARA:
Para cortar lentamente de uma cena para outra.
MATCH CUT:
Quando cortamos, por exemplo, de uma aliança na
vitrine de um joalheiro, para ela sendo colocado na mão
de uma noiva na igreja.
Planos
Em inglês, camera shots. É quando pulamos
fora da cena por um momento para ver uma coisa importante
destacada. Na maioria dos planos, os termos técnicos
são mantidos em inglês.
As primeiras duas, POV e INSERT,
sempre terminam em VOLTA À CENA, ou então no
cabeçalho novo da próxima cena.
POV
Ponto de vista (Point Of View). Você pode
precisar mostrar o que uma personagem está vendo. Isto
é feito assim:
O barulho de uma PORTA BATENDO embaixo alerta
Guilherme. Ele vai até a porta.
POV DE GUILHERME
Através da porta entreaberta, ele vê policiais
subindo a escada.
VOLTA À CENA
Guilherme tranca a porta, e rapidamente fecha o
cofre.
(...)
INSERT
Uma rápida inserção de uma detalhe. Por exemplo:
INSERT - RODA DO CARRO
o último parafuso solta e cai na estrada.
VOLTA À CENA
(...)
CLOSE SHOT e CLOSEUP
São frequentemente confundidas.
CLOSE SHOT é um plano da cabeça e ombros de
uma, ou até duas, personagens. CLOSEUP examina
de perto o detalhe de uma personagem ou objeto. Por
exemplo:
CLOSE SHOT - GUILHERME
que está suando, e ao mesmo tempo tentando manter
uma impressão de calma.
(...)
e
CLOSEUP - AS MÃOS DE GUILHERME
amarradas atrás e trabalhando desesperadamente
para se livrar das cordas.
(...)
MONTAGEM e SÉRIE DE PLANOS
Também costumam ser interpretadas como a mesma ação
- embora não sejam. A diferença é que MONTAGEM
incorpora muito mais informação na tela,
simultaneamente. É usada para mostrar uma série de
eventos como, por exemplo:
MONTAGEM
A) Manifestações estudantis na Cinelândia
B) A Passeata dos Cem Mil
C) Militares tomando o poder
(...)
Já SÉRIE DE PLANOS são mini-cenas compondo
uma sequência:
SÉRIE DE PLANOS
A) Guilherme pula do carro.
B) Ele cai por um barranco.
C) O carro perde controle, batendo numa árvore e
EXPLODINDO.
D) Guilherme levanta devagar, apoiando-se numa
rocha e olhando a fumaça subindo do carro em chamas.
(...)
Instruções para câmera
Às vezes pode ser muito importante indicar como a
câmera deve agir. Lembro de uma cena num programa de
comédia inglesa, anos atrás, que serve como excelente
exemplo. Dois amigos estavam conversando através de uma
grade. Um deles usava uniforme, camisa azul, o outro, de
casaco, aparentemente vindo da rua. Ele trazia um bolo e
notícias sobre vários amigos e membros da família do
outro. Pelo contexto, e comentários como "eu não
aguënto mais ficar aqui", imaginamos que se tratava
de um prisioneiro recebendo uma visita de um amigo. Mas
no final da cena, de repente, alguém atrás do amigo
reclamou, em off, "ei, vai ficar aí o dia
inteiro?!" A câmera abriu para revelar uma imensa
fila numa agência de correios.
Neste caso instruções para câmera seríam
fundamentais para a narrativa. São feitas em
maiúsculos. O final da cena seria escrita assim:
| HOMEM (O.S.) |
| Ei, vai ficar aí o dia inteiro?!. |
O Amigo se vira, enquanto o ÂNGULO
ABRE PARA REVELAR uma imensa fila de pessoas, a maioria
carregando cartas e embrulhos, e todos olhando
impacientemente. A decoração da sala e os posters nas
paredes mostram que se trata de uma agência de correios.
(...)
Outras instruções para câmera podem incluir, CÂMERA
SEGUE, AJUSTE, ZOOM, ENCONTRA,
etc.
INTERCUT e Diálogo simultâneo
Duas outras técnicas de que se pode precisar bastante
surgem quando precisa cortar entre duas cenas ou planos,
ou quando duas personagens falam simultaneamente.
Para cortar, por exemplo, entre duas pessoas falando
no telefone, se usa INTERCUT - antes ou depois
da segunda fala - assim:
Roberto atende.
INTERCUT CONVERSA TELEFÔNICA
(...)
É claro que INTERCUT pode ser usado em
outras situações também.
Diálogo simultâneo funciona assim:
| BRUNO |
GERALDA |
| O que é que
você está fazendo aqui?! |
Porque você
não está em casa?! |
(...)
Uma palavra final
Como já mencionei, as polêmicas e argumentos sobre
formatação que surgem nos Estados Unidos são
intermináveis. Estas regras apresentadas aqui não
pretendem ser definitivas, e muito menos a única verdade
- que não existe.
Escritores sempre vão ter suas preferências e
pequenas variações particulares.
O que pretendo fazer aqui é mostrar como escrever o
seu roteiro para que ele seja imediatamente reconhecível
como roteiro.
Que, sendo um roteiro de cinema, seja escrito e lido
na maneira mais visual possível.
|